O governo brasileiro expressou veementemente seu descontentamento e forte oposição à conclusão preliminar da investigação comercial iniciada pelos Estados Unidos, fundamentada na polêmica Seção 301 de sua legislação. Em uma nota oficial divulgada nesta terça-feira (2), o Palácio do Planalto não poupou críticas, qualificando a apuração como uma inaceitável tentativa de interferência em assuntos internos do país e refutando categoricamente a justificativa para qualquer medida unilateral contra o Brasil. Segundo as autoridades brasileiras, essa investigação, que teve início em 15 de julho de 2025, teria sido orquestrada por articulações ligadas à família Bolsonaro junto a autoridades americanas, sendo vista como uma estratégia para prejudicar os interesses econômicos nacionais e instigar ingerência política.
Para fundamentar sua posição, o governo brasileiro desmistificou a alegação de desvantagem comercial por parte dos EUA, apresentando números concretos que demonstram um cenário inverso. Os dados oficiais revelam que os Estados Unidos acumularam um robusto superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil no período de 2011 a 2025. Apenas no ano de 2025, esse saldo positivo em favor dos americanos atingiu a marca de US$ 40,5 bilhões. Além disso, o Planalto defendeu a abertura de seu mercado, informando que 76% das importações provenientes dos EUA entraram no Brasil sem qualquer imposto de importação em 2025, com a tarifa média aplicada aos produtos americanos sendo de meros 3,1%. A inclusão do PIX na investigação foi duramente criticada, com o Brasil reafirmando que o sistema é uma infraestrutura pública e imparcial, que não restringe a atuação de empresas estrangeiras. Temas como a robusta legislação anticorrupção, os benefícios americanos na propriedade intelectual (com 30% dos pedidos de patente sendo dos EUA) e o empenho na redução do desmatamento (queda de 50% na Amazônia Legal em relação a 2022, e o menor nível em sete anos para todos os biomas em 2025), também foram reforçados como pilares da soberania e compromissos brasileiros. O Brasil ainda apontou as barreiras alfandegárias enfrentadas por seu etanol (tarifa de 12,5% nos EUA) e açúcar (cerca de 80% fora da cota) como exemplos de práticas protecionistas americanas.
Apesar da escalada retórica, o governo brasileiro confirmou que as negociações com Washington permanecem em curso, conforme acordado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em maio, visando encerrar a investigação antes de 15 de julho. Contudo, o Brasil não descartou a possibilidade de recorrer aos mecanismos da Lei de Reciprocidade Econômica caso as medidas americanas sejam consideradas incompatíveis com as normas do comércio internacional. A Seção 301, pivô dessa disputa, é um dispositivo da lei comercial dos EUA que permite investigar e, potencialmente, impor sanções ou tarifas a países cujas práticas comerciais são tidas como injustas. A conclusão preliminar da USTR, no entanto, não implica em ações automáticas, com a decisão final sendo aguardada após o encerramento do processo de investigação.

