Enquanto o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e as praias da Zona Sul se mantêm como o cartão-postal tradicional do Rio de Janeiro, uma região com uma profunda carga histórica e cultural emerge como um destino de crescente relevância: a Pequena África. Este reduto da cultura afro-brasileira, situado às margens da Baía de Guanabara, abriga um dos mais importantes marcos da diáspora africana: o Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 2017. Apesar de sua inegável importância para a compreensão da formação do Brasil, especialistas apontam que o local ainda carece do reconhecimento turístico internacional que merece.
O Cais do Valongo, maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, é o coração pulsante de um circuito histórico que inclui também o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a icônica Pedra do Sal, berço do samba. Antonio Pita, jornalista e cofundador da plataforma Diáspora Black, expressou durante o recente Feira Preta Festival, encerrado no último domingo (31) no Píer Mauá após três dias intensos com a participação de cerca de 130 empreendedores e 10 mil visitantes, que a Pequena África deveria figurar entre as principais atrações internacionais da cidade. Ele ressalta que, apesar do grande fluxo de visitantes para pontos como a Pedra do Sal e o Largo da Prainha, muitos deixam de vivenciar a totalidade da experiência, sem compreender a fundação da cidade, do samba e do carnaval que ali se originou. Adriana Barbosa, diretora executiva do Preta Hub e idealizadora da Feira Preta, reforça a potência do local, que “já foi um mercado de pessoas africanas escravizadas, [e] em outra lógica econômica, […] pessoas negras não são mais mercadorias, mas proponentes de relações comerciais a partir de nossa identidade e criatividade”.
Para alçar a Pequena África ao patamar de destaque que lhe é devido, profissionais como a afroturismóloga Emily Borges, da Etnias Turismo e Cultura, defendem investimentos estratégicos em divulgação, inclusão em guias e roteiros de grandes agências, e promoção em pontos como aeroportos. Há um consenso de que, embora o “produto” turístico seja de alta qualidade – com bons operadores e guias –, ainda existe, nas palavras de Pita, um “certo racismo em destacar este destino”. O potencial é comparável a casos como o da Rocinha, onde turistas chegam a pagar R$ 150 por um vídeo aéreo após filas de duas horas. A demanda é por apoio público em sinalização, conservação, coleta de lixo e segurança, garantindo que o território seja bom tanto para moradores quanto para visitantes. Há sinais positivos: o Ministério do Turismo tem apoiado essa transformação, e o Rio de Janeiro sediará o Black Travel Summit em 2025. Iniciativas como o edital Rede Memória Viva, da Diáspora Black e Feira Preta, prometem capacitação e recursos para fortalecer as organizações locais e mapear novos roteiros afro no país, pavimentando o caminho para uma experiência turística completa e profundamente enriquecedora.

